Será que eu sou a vilã?

Oi, pessoal, não sei bem por que estou aqui escrevendo. Acho que preciso ouvir de alguém que não me conhece, que não sabe da minha história, se eu sou realmente uma pessoa horrível. Vou tentar ser o mais honesta possível, sem esconder nada, mesmo que o que eu vá contar me faça parecer um monstro. Porque, sinceramente, é assim que eu mesma me sinto às vezes. Aqui vai.

Eu namorei o Léo por apenas oito meses. Não foi nada tão longo, mas foi o bastante pra ele se tornar uma parte grande da minha vida. Ele era aquele clichê, sabe? Um cara "bom". Fofo, carinhoso, dedicado. O tipo de homem que qualquer pessoa diria que é "um achado", mas que, pra mim, começou a parecer mais um peso do que outra coisa. Ele tinha o coração no lugar certo, mas não era alguém que conseguia — ou queria — acompanhar o ritmo da vida que eu sonhava pra mim. Léo era simples, satisfeito com pouco, enquanto eu sempre quis muito mais.

E vou confessar: desde o início, eu já estava insatisfeita. Eu sabia que éramos diferentes, que ele não se encaixava no meu mundo. Mas ainda assim, escolhi ficar porque gostava do conforto que ele proporcionava. Além disso, tinha algo mais, algo estúpido, que eu nunca tinha admitido pra ninguém até agora. Eu e o Léo crescemos no mesmo bairro, e ele fez algo comigo durante a infância que, por mais idiota que pareça, eu nunca esqueci. Um dia, numa festa de família — nossas mães eram amigas —, eu estava brincando num pula-pula e ele me empurrou pra fora. Ele queria brincar sozinho. Eu caí, machuquei o joelho, e quando comecei a chorar, ele riu da minha cara, apontando na frente de todo mundo. Isso ficou comigo por anos. Ele nunca mais mencionou isso, provavelmente nem lembra, mas eu sim. A verdade é que, quando começamos a namorar, uma parte obscura de mim via aquilo como uma espécie de revanche. Era algo que eu não queria admitir pra mim mesma, mas agora vejo que talvez eu tenha entrado nesse relacionamento meio que… esperando a oportunidade de fazer ele sentir o que eu senti naquela época.

Com o tempo, comecei a jogar nele todas as minhas frustrações pequenas, as mesmas frustrações que, talvez, eu deveria ter resolvido primeiro dentro de mim. Usava comentários passivo-agressivos como “brincadeira”. Ridicularizava ele em situações bobas, como quando ele errava o ponto do arroz ou esquecia de pagar alguma conta no prazo. “Nossa, Léo, nem isso você consegue fazer direito?”, eu dizia, meio rindo, mas sabendo que aquilo o atingia profundamente. Ele, claro, nunca reclamava. Só sorria de volta, meio sem jeito, tentando não demonstrar o impacto que aquilo tinha. Mas eu via. E, de alguma forma obscura, gostava.

Aí veio o segundo ato da história: Ricardo. Ele era tudo o que o Léo não era. Determinado, atraente, cheio de ambição. Enquanto o Léo sonhava com uma vida tranquila, Ricardo planejava um futuro emocionante, com viagens, negócios, mil aventuras. Me vi atraída por ele de um jeito quase incontrolável. E, claro, aconteceu. Primeiro algumas mensagens encharcadas de flerte. Depois jantares "inocentes". Até que finalmente eu traí o Léo. E não fiz isso só uma vez.

Eu deveria ter terminado ali, mas não tive coragem. Continuei com o Léo enquanto minha cabeça e meu coração já estavam em outro lugar. E, pior, enquanto fazia isso, ainda expus ele. Ele era uma pessoa reservada, muito tímida, e me contava coisas pessoais — suas inseguranças, seus medos, coisas que ele nunca tinha contado pra ninguém. Só que eu, numa tentativa desesperada de justificar pra mim mesma o que estava fazendo, comecei a compartilhar essas coisas com os meus amigos, rindo como se fossem piadas. “Ai, vocês sabiam que o Léo dorme abraçado num travesseiro de lado porque tem medo de ficar sozinho?” Era esse tipo de coisa que eu dizia. Pequeno, mas destrutivo.

Finalmente, decidi terminar. Organizei tudo na minha cabeça e liguei pra ele numa noite, pedindo que fosse até minha casa. Não dei muitos detalhes, mas as pressões psicológicas que eu vinha colocando nele há semanas estavam pesando forte. Eu sabia disso. Ele parecia mais nervoso e vulnerável cada vez que nos falávamos. Aquela noite não foi diferente. Ele veio correndo pra minha casa, mas o problema é que… ele não deveria ter dirigido. Mais tarde, descobri que ele tinha bebido antes de sair — provavelmente por causa do nervosismo e de todas as merdas que eu vinha jogando nele. Era madrugada, e ele sofreu um acidente de moto no caminho.

Quando ele finalmente chegou no hospital, eu soube o estrago que aquilo tinha causado: ele tinha fraturado feio o punho da mão direita. Foi tão grave que precisou passar por uma cirurgia pra colocar pinos no osso. Hoje, mais de um ano depois, ele já passou por três cirurgias, mas perdeu 90% da mobilidade na mão. Ele nunca mais vai recuperar completamente os movimentos. E tudo aconteceu porque eu pedi que ele viesse naquela noite, sem ter nenhuma noção do estado emocional dele, ou pior — sabendo, mas me importando pouco.

Mesmo depois do acidente, eu terminei. Disse as mesmas desculpas esfarrapadas de sempre: “Não é você, sou eu. Preciso de tempo pra mim.” Ele chorou, claro, mas eu segui em frente. Comecei a namorar o Ricardo oficialmente poucos meses depois. E aí, pra completar a bagunça, continuei mexendo com o Léo. Mandava mensagens do tipo “Oi, só queria saber como você tá. Tá tudo bem?” Pura mentira. Era só pra garantir que ele não me esquecesse rápido. Eu sabia que ele acompanhava minhas redes sociais, então fazia questão de postar stories em lugares que eu antes dizia querer ir com ele, mas que nunca fomos. Agora eu ia com o Ricardo, fingindo que eram novos sonhos, novos desejos, mesmo sabendo que aquilo o destruiria.

Hoje, estou feliz com o Ricardo, pelo menos no papel. Mas, às vezes, me pego pensando no que fiz. No acidente, nas cirurgias, nas mágoas que deixei pelo caminho. No fundo, eu penso se sou um monstro, um erro ambulante, ou só uma pessoa tentando encontrar a própria felicidade, mesmo que de um jeito terrivelmente errado.